Empoderamento feminino: afinal, o que isso realmente quer dizer?

Empoderamento feminino: afinal, o que isso realmente quer dizer?

Você já deve ter reparado que o tema é um assunto muito presente em redes sociais e em conversas de bares, certo?

De fato, é uma questão estratégica e tem ganhado grande destaque nos últimos tempos. Com a força das redes sociais, cada vez mais mulheres ganharam uma voz e passaram a ter meios de relatar suas experiências, falar com detalhes sobre o papel que ocupam na sociedade e como se sentem no seu dia a dia.

Diante de todo esse cenário, é bem capaz que você já tenha ouvido a expressão “empoderamento feminino” — afinal, ela é praticamente figurinha carimbada em toda discussão sobre o feminismo. Mas, quando pensei em escrever sobre esse assunto, muitas dúvidas surgiram. O que isso realmente quer dizer? Como ele é alcançado? Como buscar a igualdade se somos diferentes? Enfim, estudei um pouco sobre o assunto e compartilho aqui neste post o conhecimento com vocês. Espero que gostem e se sintam, homens e mulheres, ainda mais empoderados. 

2. Direitos da mulher: uma longa história

Hoje em dia, sabemos que as mulheres têm uma lista extensa de direitos: o de votar, o de ser votada, o de trabalhar… Contudo, sabemos que nem sempre foi assim. Durante muito tempo, as mulheres foram consideradas como seres inferiores aos homens, de modo que não podiam ocupar qualquer papel de destaque na sociedade — sua função era, basicamente, servir ao sexo masculino.

Um ser imperfeito: a visão da Antiguidade até o Século XVIII

O cenário acima descrito foi o vigente durante muito tempo, e seus relatos se iniciam na Antiguidade. Para grandes filósofos da época, como Aristóteles, a mulher era um ser essencialmente incompleto, que não possuía as mesmas capacidades que os homens. De acordo com esse pensador, a única função das mulheres era a reprodução.

Com o passar dos anos, essa visão se manteve basicamente a mesma. É claro que, por vezes, surgia uma exceção e uma mulher conseguia algum papel de destaque na sociedade não só pelos seus “dotes reprodutores”, mas também pela sua capacidade intelectual.

É o caso, por exemplo, de Christine de Pisan (1364-1430), primeira mulher a se tornar uma escritora oficial na França. Foi responsável, inclusive, pela confecção do primeiro tratado a defender os direitos das mulheres, considerado por muitos o primeiro a tratar de ideias feministas no mundo.

Iluminismo, Revolução Francesa e Revolução industrial: uma mudança de cenário

Contudo, foi apenas em meados do século XVIII que o movimento pelos direitos das mulheres começou a se articular. Foi nessa época, com o advento do Iluminismo e da Revolução Francesa (movimentos intelectuais que prezavam pela liberdade, igualdade e pelos direitos naturais dos indivíduos) que muitas moças começaram a se arriscar pelo mundo das produções intelectuais, produzindo obras que defendiam a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Esse movimento ganhou ainda mais força no período da Revolução Industrial. Isso porque muitas mulheres passaram a trabalhar fora de casa e perceberam que além de serem exploradas pela jornada de trabalho que era maior e pelo salário que era menor, ainda tinham que conciliar o papel de esposa e mãe com seus empregos.

Para se ter noção da situação das mulheres, basta conhecer a famosa história do incêndio do prédio Asch Building, em Nova York. Os últimos três andares do imóvel eram a sede de uma fábrica têxtil que comportava 240 máquinas de costura aglomeradas, bem como 260 trabalhadores. O edifício não cumpria regras básicas de segurança e já havia sido notificado várias vezes, mas os proprietários não tomaram nenhuma medida quanto a isso.

A tragédia foi anunciada: quando os últimos andares do prédio começaram a pegar fogo, a maioria dos funcionários não conseguiu sair (afinal, as portas eram trancadas pelos patrões para que as funcionárias não roubassem nada). Morreram 146 pessoas — dentre elas, 129 mulheres, das quais 90 se jogaram das janelas tentando fugir do fogo.

Diante desse cenário, se intensificaram os protestos e as greves pelos direitos das mulheres. O movimento sufragista, que exigia o direito de voto para mulheres, também ganhou as ruas.

Assim, às custas de muita luta, os direitos femininos foram sendo reconhecidos pouco a pouco.

Os dias atuais

Grande parte dos direitos das mulheres já foram reconhecidos. A luta pelo reconhecimento de outros, contudo, ainda continua — é o caso da igualdade salarial, por exemplo, já que pesquisas mostram que mulheres ainda ganham consideravelmente menos que os homens.

Ainda assim, não há dúvidas de que as mulheres vêm desempenhando um papel de destaque cada vez maior na sociedade: ocupando cargos de alto renome, gerenciando seus próprios negócios e investindo em sua educação.  E isso tudo só foi possível graças ao famoso empoderamento feminino!

3. Empoderamento da mulher: os princípios para alcançá-lo

Mas afinal, o que é esse tal de empoderamento feminino? Se você prestar atenção à expressão, vai reparar que a dica já está lá: empoderar significa dar poder a alguém. Portanto, empoderamento feminino significa, basicamente, dar poder às mulheres.

Isso não significa que as mulheres devem receber mais poderes que os homens, ocupando uma posição hierárquica acima deles. De maneira alguma! O empoderamento feminino, na verdade, pretende aumentar o rol de direitos das mulheres apenas para os igualar aos dos homens. Por outro lado, vale lembrar que direitos estão sempre acompanhados de deveres.

Na verdade, quando se fala em empoderamento feminino, é importantíssimo levar em conta o contexto histórico das mulheres — que, como vimos, durante muito tempo foram encaradas como seres inferiores e não dignos de alguns direitos.

Assim, o empoderamento feminino é um conjunto de ações que busca promover a igualdade, de maneira a eliminar as diferenças que ainda subsistem nos dias atuais.

O assunto é tão importante que foi objeto de uma parceria entre a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) e o Pacto Global da ONU.

Cientes do papel das empresas não só para o crescimento da economia, mas também para o desenvolvimento humano, essas entidades lançaram em 2010 um documento chamando de “Women’s Empowerment Principles”, ou seja, Princípios de Empoderamento das Mulheres. Nele, foram destacadas algumas práticas que devem ser incorporadas pela comunidade empresarial para promover a igualdade de gênero e o empoderamento feminino. De acordo com a ONU, liderança promove a igualdade de gêneros. Por isso, é importante que a comunidade empresarial se preocupe em tomar medidas simples para a favorecer essa igualdade, como:

  • Estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero, no mais alto nível;
  • Estabelecer metas para a igualdade de gênero e incluir o progresso como um aspecto a ser avaliado no que diz respeito à performance dos gerentes;
  • Engajar investidores (internos e externos) no desenvolvimento das políticas da empresa, programas e planos de implementação que promovam a igualdade;
  • Assegurar que todas as políticas da empresa são sensíveis à igualdade de gênero — identificando fatores que impactam a mulheres e homens de maneiras diferentes — e que a cultura da empresa promova avanços quanto à igualdade e à inclusão.

Um dos exemplos dados pela ONU de empresas que adotaram o princípio com sucesso, é o da liderança de uma companhia asiática, que implementou uma abordagem compreensiva com relação ao empoderamento feminino, dando reconhecimento às realizações das funcionárias e apoio ao avanço das mulheres na empresa, tudo isso por meio de uma educação ampla dos funcionários, treinamento e iniciativas de segurança.

  • Tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando e apoiando os direitos humanos e a não-discriminação

Mais uma vez, vemos que a ideia do empoderamento não é colocar as mulheres em uma posição superior à dos homens, mas sim de promover a igualdade entre os gêneros.

As ideias centrais desse princípio são igualdade de oportunidade, inclusão e não discriminação. Ideias básicas como o pagamento de remuneração igual (inclusive benefícios) ao trabalho de igual valor, independentemente do gênero do funcionário; assegurar que as práticas e políticas da empresa sejam livres de discriminação baseada em gênero; assegurar a participação feminina (de 30% ou mais) na tomada de decisões e na gerência de todos os níveis e em todas as áreas do negócio; etc.

Segundo a ONU, uma empresa multinacional de aço implementou esse princípio com sucesso ao criar um comitê especial formado pela gerência e funcionárias mulheres. O trabalho principal do comitê era identificar as preocupações das mulheres e, em resposta, organizar treinamentos e programas.

Em outro caso, uma empresa europeia que buscava reter e atrair funcionárias mais qualificadas iniciou um processo de coleção de dados sobre antigas empregadas e os analisou. Após, criou uma lista de recomendações sobre como as funcionárias mulheres deveriam ser tratadas.

  • Garantir a saúde, segurança e bem-estar de todas as mulheres e homens que trabalham na empresa

O empoderamento feminino também pode ser alcançado por meio da promoção da saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores de uma empresa. Esse princípio pode ser colocado em prática das seguintes maneiras:

  • levar em conta os diferentes impactos nos homens e mulheres, providenciando condições seguras de trabalho e proteção contra a exposição da materiais perigosos e outros riscos;
  • estabelecer uma política de tolerância zero com relação a todas as formas de violência no trabalho, inclusive a verbal e/ou física, bem como prevenir qualquer tipo de assédio sexual;
  • respeitar os direitos de folga para cuidados médicos dos homens e mulheres, bem como o de assessoria aos seus dependentes.

O que importa é a preocupação com saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores.

Um exemplo bem-sucedido da aplicação desse princípio em grandes companhias foi o caso de uma empresa queniana que, reconhecendo a necessidade de dar apoio a pais que trabalham, passou a oferecer um serviço de creche gratuita, bem como o serviço médico em casa. Além disso, contratou uma cobertura médica que cobria inclusive cuidados de pré e pós natal.

  • Promover educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres

Em muitos casos, as mulheres tiveram sua formação profissional prejudicada, geralmente por ter que cumprir a chamada jornada tripla — no trabalho, como mãe e como dona de casa. Por esse motivo, a ONU reconheceu que a promoção da educação, capacitação e desenvolvimento profissional para as mulheres no ambiente corporativo é um dos princípios de empoderamento feminino.

Ações como investimento em políticas que abrem caminho para o avanço das mulheres em todos os níveis e áreas da empresa, bem como que encorajam as mulheres a investir em campos de atuação não tradicionais; assegurar acesso igualitário à educação oferecida pela empresa e a programas de treinamento, incluindo aulas de literacia, vocacionais e sobre tecnologia.

Um exemplo de empresa que teve sucesso na aplicação do princípio foi uma grande companhia de aviação europeia que tentou entrar em contato com a juventude por meio de projetos de educação, tentando quebrar a barreira que tradicionalmente limita as mulheres para alguns trabalhos e os homens, para outros.

  • Apoiar empreendedorismo de mulheres e promover políticas de empoderamento das mulheres através das cadeias de suprimentos e marketing

Como veremos no próximo tópico, o empreendedorismo feminino tem uma forte relação com o empoderamento das mulheres. Não é por outro motivo que a ONU o elegeu como um dos princípios a serem adotados para fortalecer o sexo feminino no ambiente empresarial.

Assim, expandir as relações com negócios liderados por mulheres, incluindo as pequenas empresas, e com mulheres empresárias; dar apoio a soluções sensíveis ao gênero no que diz respeito à concessão de crédito e empréstimos; respeitar a dignidade das mulheres em toda ação de marketing da empresa. Todas essas são ferramentas simples para promover o empoderamento feminino.

A ONU destaca o caso de um banco do Reino Unido que, reconhecendo o papel das mulheres no empreendedorismo, lançou serviços financeiros especializados, oportunidades microfinanceiras e empréstimos para negócios. Além disso, oferece um centro de recursos online para mulheres empresárias que estão gerenciando pequenos e médios negócios.

  • Promover a igualdade de gênero através de iniciativas voltadas à comunidade e ao ativismo social

Outra maneira de promover o empoderamento feminino é por meio das iniciativas comunitárias e sociais que alavanquem a igualdade de gênero. Uma maneira bem fácil de colocar isso em prática é dando um exemplo à comunidade de como a sua empresa é comprometida com a igualdade de gênero e o empoderamento da mulher.

Além disso, é possível envolver também os investidores da comunidade e outras entidades para eliminar a discriminação e a exploração, abrindo oportunidades para mulheres jovens e adultas.

Adotando esse princípio, uma grande empresa internacional de cosméticos lançou e vendeu produtos para angariar verbas para organizações locais que trabalham em prol do fim da violência doméstica.

  • Medir, documentar e publicar os progressos da empresa na promoção da igualdade de gênero

Por fim, o último princípio destacado pela ONU para promover o empoderamento feminino é acompanhar (e divulgar) os progressos da empresa no que diz respeito à igualdade de gênero.

Investindo na transparência quanto a esses dados e estabelecendo metas para a inclusão das mulheres em todos os níveis, uma empresa pode até mesmo influenciar outras companhias e a própria comunidade local a promover a igualdade de gêneros.

Como exemplo da aplicação desse princípio, a entidade destacou o caso de uma média empresa israelita que se tornou a primeira de seu tamanho a publicar voluntariamente um relatório sobre responsabilidade social e ambiental, refletindo seu compromisso com a igualdade de gênero.

4. A relação com o empreendedorismo feminino

No tópico anterior, mencionamos brevemente que o empreendedorismo e o empoderamento feminino possuem uma forte relação.

Entendo que empreendedorismo é, basicamente, investir em ideias novas e transformá-las em realidade. Nesse contexto, fica fácil entender a relação entre o empoderamento e o empreendedorismo: ter um lugar de destaque no mercado de trabalho, conquistando sua independência financeira e melhorando sua autoestima, é uma ótima ferramenta de empoderamento — e principalmente para as mulheres, já que  em grande parte dos casos estão sempre em busca de novas maneiras de conciliar família e trabalho.

Empreender garante à mulher uma maior autonomia em vários aspectos, e é por esse motivo que empreendimento pode ser sinônimo de empoderamento. Mas, não pense que empreender é apenas abrir o próprio negócio. Nada disso! É possível também investir no empreendedorismo feminino até mesmo no seu emprego regular: basta investir em novas atitudes no dia a dia que demonstrem a sua vontade contribuir não só com a evolução do negócio do empregador, mas também com a sua própria evolução pessoal e profissional.

O segredo para alcançar o sucesso, na verdade, é estar disposta a encarar mudanças e não ter medo de agir.

A expressão-chave é “’fazer acontecer”

5. Mulheres de poder: 3 casos inspiradores

Trouxe 3 exemplos de mulheres que, dentro das suas respectivas áreas, foram grandes responsáveis pela promoção da representatividade feminina:

Nina Simone

Nina Simone foi uma grande cantora e símbolo do ativismo pelos direitos civis dos negros e das mulheres. Nascida em 1933, utilizou seu talento desde cedo para mudar o mundo à sua volta — contrariando os costumes racistas da sua época, aos 11 anos se recusou a se apresentar em um recital caso seus pais, que eram negros e ocupavam assentos no fundo do teatro, não fossem deslocados para as fileiras à frente do palco.

A cantora enfrentou inúmeras adversidades ao tentar fazer o que amava: foi recusada em uma grande escola de música apenas por ser negra e constantemente apanhava do marido. Ainda assim, superou os obstáculos e usou seu principal instrumento — sua voz — para compartilhar suas experiências e visões de mundo.

Uma de suas músicas mais famosas, “Mississippi Goddamn”, critica fortemente o assassinato de quatro crianças negras dentro de uma igreja situada em Birmingham, no ano de 1963. Hoje, é reconhecida como uma das maiores cantoras de todos os tempos.

Frida Kahlo

A pintora Frida Kahlo é outro exemplo de como o empreendedorismo é capaz de promover a representatividade feminina.

Nascida em 1907, no México, Frida teve uma vida particularmente difícil. Ainda criança, foi acometida com poliomelite, doença que causou sequelas graves em uma das suas pernas. Mais tarde, aos dezoito anos, sofreu um acidente em um bonde e acabou com a espinha e pelve fraturadas, o que a obriga a ficar imobilizada durante um longo período. É nessa época que Frida começa a pintar quadros (a maioria, autorretratos) que retratavam a dor e sofrimento causados pela sua situação.

Aos 20 anos, enquanto ainda se recuperava do acidente, passou a frequentar os círculos artísticos e políticos do México. Foi lá que conheceu seu marido, Diego Rivera, com quem teve uma relação conturbada.

Superando todas as adversidades, Frida conseguiu se destacar em um meio artístico dominado por homens, explorando os sentimento e questões subjetivas intrínsecas às mulheres. Até hoje é reconhecida como uma das maiores pintoras de todos os tempos.

Karol Conká

Nos últimos tempos, a curitibana Karol Conká surgiu como um dos maiores exponentes do feminismo.

A rapper atingiu o sucesso com suas letras sobre preconceito, empoderamento feminino a importância do amor próprio. Dessa forma, foi capaz de se comunicar com muitos jovens, que se identificaram com as questões e experiências por ela apresentadas.

A cantora esclarece que ainda sofre com assédios e preconceitos, tanto por ser mulher quanto por ser negra. Contudo, vem contando com o seu talento para mudar o mundo ao seu redor, principalmente por meio das suas letras e de sua forma divertida de se vestir. Para ela, a atitude foi o segredo do sucesso estrondante.

6. Conclusão

Por todo o exposto, vimos a importância do empoderamento feminino na vida e na conquista dos direitos da mulher. Uma das formas mais eficazes de alcançá-lo é por meio do empreendedorismo: investindo em novas ideias e atitudes, as mulheres são capazes de conquistar sua autonomia — e, por consequência, ocupar um papel ainda mais importante na sociedade.

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